

“A mão fica gelada; às vezes a gente vai pensando no pior. É o medo, né? Mas a saúde da gente não pode depender do medo. O medo nunca me parou e não vai me parar.” É com este depoimento esperançoso que, a cada consulta, a cuidadora de idosos Lidiane Costa, 42 anos, enfrenta a ansiedade de acompanhar as alterações identificadas em suas mamas. Moradora do bairro Vila União, em Fortaleza, ela realiza exames e consultas a cada seis meses desde 2024.
O acompanhamento acontece no Instituto de Prevenção do Câncer (IPC), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), em Fortaleza, que oferece atendimento especializado em mastologia e ginecologia e é referência no estado. Em 2024, o posto de saúde encaminhou Lidiane para atendimento ginecológico no IPC e, durante a consulta, foram identificadas alterações nas mamas. Ela realizou uma mamografia na própria unidade, na qual foram identificadas calcificações, e passou a ser acompanhada por uma especialista, além de realizar consultas e exames a cada seis meses.

Lidiane Costa monitora alterações na mama com exames e consultas a cada 6 meses no Instituto de Prevenção do Câncer
Desde então, ela segue o acompanhamento indicado pela equipe. A experiência de uma amiga em tratamento de câncer de mama e os casos de outros tipos de câncer na família contribuíram para que ela ficasse mais atenta à própria saúde. “Impressiona como, às vezes, a doença avança rápido; não dá para descuidar mesmo”, afirma.

Diretora clínica do Instituto de Prevenção do Câncer (IPC), a mastologista Lina Araujo concorda com Lidiane e percebe o medo como um importante desafio a ser enfrentado, principalmente por mulheres mais idosas
Para a mastologista e diretora clínica do IPC, Lina Araujo, o medo do diagnóstico e dos possíveis tratamentos precisa ser acolhido. “Esse receio pode adiar tanto a procura por atendimento quanto a busca pelo resultado de um exame já realizado. É comum ter medo de cirurgia, de quimioterapia, de cair o cabelo, de retirada da mama; tudo isso mexe muito com a paciente”, explica.
Ter espaço para falar sobre esses receios e esclarecer dúvidas com a equipe de saúde ajuda cada mulher a seguir com o acompanhamento e a incorporar a prevenção à rotina.
Na prática, esse cuidado acerca do câncer de mama começa antes de qualquer alteração visível. A mastologista Lina Araujo explica que a prevenção envolve medidas para reduzir o risco de desenvolver o câncer, enquanto o diagnóstico precoce busca identificar a doença quando ela já está presente, permitindo iniciar o tratamento mais cedo.
Praticar atividade física, manter uma alimentação saudável e evitar bebidas alcoólicas estão entre as medidas de prevenção. “Cerca de 30% dos casos de câncer de mama podem ser evitados com a adoção de hábitos saudáveis”, afirma a médica. A orientação é que esses cuidados sejam contínuos e façam parte de toda a vida.
Outros fatores também estão associados ao maior risco de aparecimento de câncer, como a obesidade após a menopausa, que deve ser considerada no acompanhamento de saúde de cada mulher, com orientação individualizada sobre alimentação e atividade física e, ainda, atenção ao histórico familiar, afinal, o problema também pode ser hereditário. “Todo câncer, inclusive o de mama, é uma combinação de alterações genéticas e fatores ambientais”, afirma a médica.
A orientação profissional, portanto, deve considerar tanto os hábitos cotidianos quanto o histórico pessoal e familiar. Embora as medidas de prevenção ajudem a reduzir os riscos, elas não eliminam a possibilidade de desenvolver a doença. Por isso, também é importante conhecer o próprio corpo, observar mudanças nas mamas, realizar o autoexame e manter os exames indicados para cada mulher.
Lina completa que: “O autoexame não precisa ser feito de forma rotineira. Quando a paciente se sentir confortável, na hora do banho ou na troca de roupa, ela pode se palpar. Mas não substitui o exame clínico do médico e não substitui a mamografia”.
Ao perceber alguma alteração, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação, mesmo que os exames anteriores não tenham identificado problemas.
A mamografia de rastreamento é realizada mesmo quando não há sinais ou sintomas suspeitos. No SUS, a recomendação de rotina é fazer o exame a cada dois anos, dos 50 aos 74 anos. Para mulheres entre 40 e 49 anos, o acesso também é possível, após orientação profissional sobre os benefícios e os riscos e uma decisão compartilhada.
“O programa de rastreamento de rotina continua sendo de 50 a 74 anos, com mamografia a cada dois anos”, esclarece Lina. A ampliação da idade máxima, antes de 69 anos, ocorreu em 2025.
Ao perceber um caroço na mama ou na axila, vermelhidão ou mudança no formato do mamilo, a orientação é procurar o posto de saúde, independentemente da idade. Não é necessário esperar a idade indicada para o exame, a próxima mamografia de rotina ou o mês de outubro para buscar avaliação.
A orientação é ir ao posto de saúde, e a equipe responsável avaliará a alteração e providenciará os exames e o encaminhamento ao atendimento especializado, quando necessário. O cuidado deve continuar depois do exame: é importante buscar o resultado e apresentá-lo ao profissional responsável pelo acompanhamento, que indicará os próximos passos.

Outra história também foi alterada pelo atendimento médico rápido: a de Francilene Soares de Oliveira. Foi durante uma ação do Outubro Rosa, em 2025, que a moradora do bairro Parque Granjeiro, no Crato, teve um nódulo identificado na mama esquerda por uma mastologista da policlínica do município.
“Nessa mesma noite, fiz a mamografia e a ultrassonografia e, depois, foram realizados todos os demais passos para me conduzir a Barbalha, onde comecei o tratamento.”
Ela resolveu fazer um exame por causa do apelo da campanha e, ali mesmo, o nódulo foi identificado na mama esquerda e todo o suporte necessário foi prestado.
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Francilene lembra que, naquela noite, Luciana Sobreira, gestora da Policlínica Regional no Crato, a encaminhou às profissionais responsáveis pelos exames. “O que mais me fortaleceu foi receber todo aquele cuidado, com o encaminhamento dos exames para eu fazê-los o quanto antes”, conta.
O percurso de Francilene é parte do papel das policlínicas no acesso a exames e consultas especializadas em todo o Estado do Ceará. Esse acesso começa, assim como o acesso ao IPC, na atenção primária: após avaliação e solicitação médica, o agendamento é feito pela regulação municipal.
Segundo o coordenador de Gestão de Consórcios da Sesa, Bruno Eloy, o trabalho que já vem sendo feito para a prevenção, o diagnóstico e o rápido atendimento nas Policlínicas Estaduais é ampliado neste mês. “As estratégias variam conforme a organização de cada serviço e incluem atendimento aos fins de semana e a ampliação da carga horária dos profissionais. A finalidade é possibilitar a realização dos exames em tempo oportuno”, completa.
Em outubro de 2025, as policlínicas realizaram 17.424 mamografias, aumento de 39,4% em relação aos 12.503 exames registrados no mesmo mês de 2024.
A prevenção do câncer de mama e a busca por atendimento precisam fazer parte da rotina ao longo de todo o ano. Essa é a proposta da campanha permanente “De outubro a outubro rosa”, desenvolvida pela Sesa. A iniciativa reúne ações educativas sobre a redução de riscos, a atenção aos sinais da doença e a realização dos exames indicados, além de estratégias para ampliar o acesso à mamografia.
Ao longo de todo o mês de outubro, o Instituto de Prevenção do Câncer (IPC) realizará atividades especiais em referência à campanha. A programação inclui palestras, atividades nas salas de espera, rodas de conversa, intervenções teatrais e outras ações educativas voltadas para pacientes e trabalhadores da própria unidade.
Nas policlínicas, esse trabalho envolve a articulação com os consórcios de saúde e os municípios para organizar a oferta de exames. A campanha também incentiva as mulheres a buscar os resultados e dar continuidade ao acompanhamento, para que alterações suspeitas sejam investigadas e recebam o encaminhamento necessário.